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COLUNA NERY
Nery José Thomé

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O MELHOR E O PIOR DA HUMANIDADE

 

Primeiro foram as imagens da tragédia no Haiti, que nos chocaram principalmente pelas histórias de mais de 200 mil vidas encerradas de maneira tão drástica, a miséria e o desespero de quem sobreviveu. Mas também foi impossível não observar com indignação quando as redes de televisão exibiram cenas da degradante situação humana que, mediante tal momento de caos, encontrou nos saques a lojas, supermercados, casas sob escombros, talvez uma resposta para suas necessidades mais essenciais.

No Chile, vítima de um dos maiores terremotos de sua história, seguido de tsunamis que arrasaram a costa do país, também é impossível não se condoer com as matérias que nos mostram a tristeza de um povo que viu sua vida mudar de uma hora para a outra. As cenas de saques a supermercados, com pessoas acusando o governo de não providenciar o abastecimento das necessidades mais essenciais e de comerciantes que aproveitam a tragédia alheia para ganhar em cima do desespero de muitos, também nos choca.

Concepción, uma das cidades mais atingidas pelo terremoto, é a que mais registra ocorrência de saques, principalmente comida e água. No entanto, as emissoras de televisão conseguiram flagrar pessoas carregando das lojas televisores, máquinas de lavar roupa e até geladeiras.

Embora muito aleguem que o motivo dos saques no país chileno seja o temor do racionamento, o que dizer das pessoas que levaram para suas casas os eletrodomésticos acima citados? E as casas destruídas que também estão sendo invadidas por pessoas em busca do que ainda ficou inteiro, fazendo com que seus proprietários tenham que improvisar sua própria segurança?

Os saques, a violenta disputa por comida, restos ou trapos no

 

 

Haiti pouco nos surpreende, afinal, o país, cuja maioria da população já vivia na miséria, atingido por tal tragédia, torna-se quase impossível um pouco de civilidade, amor ao próximo e respeito à propriedade alheia.

No entanto, o Chile é considerado a economia mais próspera da América Latina, além de ser o país latino que atingiu melhores resultados nos exames internacionais de aprendizagem na educação fundamental. O que explica, portanto, que tantos aproveitem a desgraça alheia, a falta de organização dos serviços públicos para pilhar casas destruídas, supermercados fechados e lojas dos mais diferentes artigos? Será que, acuados após uma experiência tão traumática, exibamos o pior de nós, o nosso lado mais irracional?

De outro lado, a mobilização de milhares de pessoas em diversos cantos no mundo, procurando ajudar as vítimas das tragédias, ainda é possível acreditar na bondade do ser humano, que, vencendo anestesia que a profusão de notícias nos impõe todos os dias, faz sua parte, tornando concretas nossas melhores intenções.

São lindas histórias de pessoas que doaram o pouco que tinham para ajudar os que perderam tudo; voluntários que não medem esforços para tornar o desespero das vítimas mais fácil de ser suportado. É a linda face que a humanidade nos apresenta, quando realmente nos aproximamos dos ideais cristãos de irmandade e fraternidade.

Talvez seja em momentos extremos como na ocorrência de tragédias que mostremos de maneira mais concreta do que somos feitos, nosso lado claro, belo, fraterno, convivendo ao lado da obscuridade, irracionalidade e egoísmo. O que nos resta é esperar que o lado bom vença sempre e que vejamos mais exemplos do melhor do que do pior da humanidade.

Nery José Thomé
Engenheiro Agrônomo
Presidente da Associação dos Jornais Diários do Interior

 

 

COLUNAS ANTERIORES

 

O AGRICULTOR BRASILEIRO NÃO DESISTE NUNCA

 

A notícia de que os Estados Unidos irão ampliar sua ofensiva no comércio internacional do agronegócio, prometendo dobrar suas exportações em cinco anos, veio com um alerta para os produtores brasileiros de milho e soja, principalmente os paranaenses, pois nosso estado é o maior produtor de grãos do país.

Para estimular o agronegócio norte-americano, as autoridades anunciaram recentemente medidas como o aumento de subsídios para o setor e a intensificação dos acordos bilaterais com países de consumo em destaque, como, por exemplo, a China.

No Paraná, a soja e o milho são dois dos principais produtos do Estado e, mesmo com as chuvas em excesso em algumas regiões, as expectativas são de bons resultados para a safra 2009/2010. As regiões norte e oeste do estado destacam-se na produção de soja, enquanto o sul e o sudoeste apresentam ótimos resultados na cultura do milho.

O plantio de soja tem apresentado boas perspectivas para a presente safra, com possibilidade de colheita de mais de 13 milhões de toneladas no estado, contra nove em 2008/2009, sem contar, é claro, a esperança de que o valor por saca seja próximo do razoável, embora, ainda estejam longe do ideal, conforme estimativa do setor.

Mesmo sendo o maior produtor de milho do país, a área de plantio da cultura apresentou uma redução de 28% na safra 2009/2010, pois a estiagem do ano passado atingiu fortemente o produto rural. Para piorar as perspectivas, os baixos preços obtidos desanimam o plantio do milho. A baixa produção e a grande quantidade de milho em estoque também contribuem nos resultados da cultura, pois, segundo dados da Ocepar, mais de 10 milhões de toneladas estão armazenadas, aguardando preço melhor ou incentivo às exportações.

Embora o agronegócio brasileiro tenha muito a comemorar quando o quesito é produtividade de suas principais culturas, a falta de subsídios ao produtor rural e a queda das exportações brasileiras emperra a competitividade do produto brasileiro, quando, por exemplo, é comparado aos Estados Unidos, que, embora tenham áreas menores disponíveis para plantio, são líderes no plantio do milho e avançam, a passos largos, para alcançar o nível de produtividade e qualidade da soja brasileira.
Falta ao governo brasileiro e às nossas autoridades ligadas ao agronegócio a conscientização de que é preciso se preparar para

 

 

um mercado cada vez mais competitivo, mais sustentável, onde será preciso um reposicionamento no mercado e em nossas relações diplomáticas comercias.

É preciso posicionamento mais firme do governo brasileiro sobre o tema, sem contar, é claro, medidas efetivas que resolvam um dos maiores empecilhos do agronegócio brasileiro: a precária infraestrutra nacional, que diz respeito aos meios de escoamento da safra, armazenagem, é, é claro, aos portos  brasileiros.

E é a infraestrutura logística brasileira talvez um dos fatores que mais emperram o setor, pois anulam a competência de nosso produtor frente ao mercado internacional. A falta de investimento nos transportes e má gerência de nossos portos são as maiores dificuldades quando se quer aumentar as exportações e a competitividade.

Mais uma vez, há de se pensar em uma alternativa para o transporte nacional de grãos, trocando as rodovias por alternativas mais economicamente mais viáveis, como hidrovias e  ferrovias, as quais, com investimentos necessários, iriam representar melhor eficiência operacional e, é claro, a redução de custos. 

Alem da questão da infraestrutura, temos outro nó na questão ambiental, a qual vem sendo sistematicamente empurrada com a barriga ameaçando ``roubar`` aos produtores 20 % de suas áreas para serem abandonadas a recomposição de matas e mais as matas ciliares (as quais concordamos serem vitais e que devem ser mantidas). O problema é que tirar 20 % das áreas produtivas é o mesmo que pegar um industrial e cortar 20 % de seu parque industrial ou pegar uma loja e tirar 20 % da sua área de vendas. Áreas consolidadas ao processo produtivo devem ser mantidas excluindo-se as matas ciliares as quais devem ser mantidas intactas ou recompostas.

O produtor rural brasileiro pode ser considerado um herói ou aquele que não desiste nunca, afinal, com tantas perspectivas preocupantes para o futuro do plantio de grãos, ainda se dedica para suplantar, a cada ano, as expectativas de colheita e colaborar para os resultados positivos da balança comercial. Falta, no entanto, a mesma dedicação e crença por parte do governo brasileiro em dar sua contrapartida, que depende não apenas de subsídios que melhorem o preço de nossos produtos, mas, principalmente de melhores condições para que possamos competir em igualdade num mercado cada vez mais concorrido.
Nery José Thomé
Engenheiro Agrônomo
Presidente da Associação dos Jornais Diários do Interior

 

 

 

VENCER DEPENDE DE PERSEVERANÇA


Dizem que se atribui a Albert Einsten a frase: “Deus não nos fez perfeitos e não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende de nossa vontade e perseverança”.

Perseverança. Eis uma palavra bela, forte e repleta de significados, mas cuja amplitude de sentido só pode ser medida quando exemplos concretos nos provam o que a firmeza, a constância num sentimento, numa resolução, podem fazer por nós.

Ao final de mais um Carnaval, talvez a nossa festa mais popular e conhecida como típica de nosso país, o carnavalesco da Unidos da Tijuca, Escola de Samba campeã do Carnaval carioca de 2010, Paulo Barros, personifica o sentido do termo perseverança.
Com a vitória incontestável, já que a escola também havia sido eleita como a melhor das 12 agremiações do chamado Grupo Especial pelo público, Paulo Barros finalmente sente o gostinho da vitória, após amargar dois vice-campeonatos: em 2004, quando surpreendeu a Sapucaí com o arrebatador carro representando o DNA, impondo um novo padrão de alegorias humanas e, em 2005, através de um carro alegórico cujo movimento de seus integrantes lembrava as asas de um pavão.
Até a vitória tão esperada em 2010, Paulo Barros ainda ficou em sexto lugar em 2006, ainda pela Unidos da Tijuca; quinto e sétimos lugares na Unidos da Viradouro em 2007 e 2008 e um quarto lugar pela Unidos da Vila Isabel no ano passado.
A mágica que extasiou quem observava o andamento da comissão de frente da Unidos da Tijuca foi apenas um dos destaques trazidos pelo carnavalesco, que finalmente pode comemorar a vitória tão esperada.

Assim como o exemplo de Paulo Barros há outros tantos que merecem destaque, como, por exemplo, J. K. Rowling, escritora britânica autora da saga Harry Potter, que conquistou milhões de fãs no mundo inteiro. Antes de ser publicado, o primeiro livro da série foi recusado por dezenas de editoras. Sthephenie Meyer,

 


autora da saga Crepúsculo, também recebeu diversas recusas
antes de poder comemorar finalmente a publicação da obra que hoje encanta fãs de diversas idades em todos os cantos do mundo.

Nem sempre precisamos recorrer a exemplos tão distantes como o carnavalesco Paulo Barros ou as escritoras já descritas, pois basta olhar ao nosso lado, conhecer quem convive conosco que certamente ouviremos belas histórias que irão nos incentivar a perseverar.

Falar de perseverança parece difícil quando enfrentamos um dia a dia repleto de da rotina, que nos faz agir de modo autônomo, impedindo-nos de refletir sobre o que realmente queremos e o que nos faz feliz; o desânimo também é um dos obstáculos da perseverança, pois nos engessa a vontade de mudar.

Vivenciamos, diariamente, oportunidades de testar nossa perseverança, seja quando enfrentamos obstáculos profissionais, dificuldades familiares ou problemas de saúde. Basta entender que os vitoriosos não são melhores ou piores que nós, apenas souberam o que fazer com o talento que de Deus receberam, sem desperdiçar ou esbanjar, usando apenas como ingredientes da fórmula vitoriosa a vontade de vencer e a perseverança.

Assim devemos nortear nossas vidas, em meu entender. Devemos em nossas reflexões estabelecer nossas metas.  Discuti-las com a família e amigos próximos e a partir daí trabalhar no sentido de alcançar as metas propostas com muita tenacidade. Assim tenho agido no passar dos anos, assim tenho conseguido atingir muitos objetivos familiares comuns, e espero com este artigo compartilhar esta experiência carnavalesca-literária e motivar muitos que estejam precisando de um estimulo para assim agirem. Perseverança com integridade são geradores  de sucesso. Tente você também.

Nery José Thomé
Engenheiro Agrônomo
Presidente da Associação dos Jornais Diários do Interior

 

 

 

ATÉ QUANDO?

 

Manchete 1: Alcides do Nascimento Lins, rapaz pobre, residente em uma das tantas favelas que se espalham por nosso país e que, apesar de tudo e de todos, concluiria, no final deste ano, o curso de Biomedicina pela Universidade Federal de Pernambuco, para orgulho de sua mãe, uma catadora de lixo reciclável, é assassinado com dois tiros em frente à sua casa.

Manchete 2: Um ônibus de transporte escolar, circulando entre as cidades de Montividu e Iporá, a 280 km de Goiânia, envolvido num grave acidente que vitimou 15 mortos, deixando outros 30 feridos. Entre os mortos, a maioria crianças que retornavam da escola rural que frequentavam.

Manchete três: Acidente termina na morte de duas crianças quando um motorista bêbado, dirigindo em alta velocidade e sem habilitação, colide contra veículo de transporte escolar, feriando ainda outras três crianças. O motorista será indiciado por homicídio culposo e outros crimes.

Manchete quatro: Uma van transportando alunos de uma escolinha de futebol,   no Jardim Albuquerque, é abalroada por uma camionete de município vizinho matando um menino inocente  de 8 anos.

Quatro histórias, todas elas com fim trágico, uma em cada local do País e todas com algo comum: a violência. Seja pela violência urbana, que levou um rapaz estudioso, dedicado e batalhador a morrer na porta de casa ao ser confundido com outro; seja pelo choque entre veículos numa estrada qualquer, provavelmente motivado pela imperícia e imprudência de motoristas apressados; ou, ainda, fruto de uma situação altamente perigosa – bebida e volante – ou ainda pela simples falta de uso do cinto de segurança; todas as histórias relatadas acima nos chocam, nos aterrorizam, nos revoltam.

 

 

Como não se compadecer com a dor de uma mãe ao enterrar o filho, talvez o primeiro na história de sua família a frequentar um ambiente universitário, que perdeu a vida pela falta de um dos quesitos básicos que nossas Constituição diz caber ao Estado nos garantir: a segurança?

E como não sentir o coração doer ao ouvir aquela mãe descrever o orgulho de seu filho em ir à escola pela primeira vez e sua dor ao lembrar que ele não voltaria mais para casa, vitimado pelo acidente com o ônibus de transporte escolar.

E é possível não se revoltar contra a atrocidade cometida por um motorista bêbado, sem habilitação, que nem era proprietário do veículo que conduzia?

Também lamentável imaginar quantas crianças ainda circulam em vans , carros, ônibus sem o uso adequado e necessário do cinto de segurança.

Todas essas histórias logo estarão no esquecimento das manchetes e até de nós mesmos, mas, para as famílias que ainda choram seus entes queridos, a situação trágica do falecimento de seus jovens nunca mais será esquecida.

A imagem do reitor chorando sem conseguir expressar de outro modo a dor por mais uma vida desperdiçada, um homem que, pelo caráter do cargo que ocupa, certamente é um profissional para o qual as palavras não faltam, é talvez a que melhor reflete nossa reação mediante tais crimes, afinal, é desta forma que nos vemos frente à telinha, todos os dias, pensando até quando barbáries como estas irão acontecer...e rezando, sempre, para que nossa família escape de tão triste destino, se isso for possível.


Nery José Thomé

Engenheiro Agrônomo
Presidente da Associação dos Jornais Diários do Interior

 

 

 

AINDA CONTABILIZANDO O PREJUÍZO CAUSADO PELAS CHUVAS

 

Embora a chuva tenha dado uma trégua nesta semana (e com muito calor!), o resultado dos últimos dias chuvosos de janeiro para os paranaenses foi desastroso, a ponto de afetar mais de quatro mil pessoas, deixando desabrigados cerca de mil e cem paranaenses, sem contar os desalojados (que estão em casa de amigos ou parentes), além de alguns mortos e feridos.

No artigo do último sábado, já debatemos os efeitos das chuvas em excesso para as cidades e como nós, cidadãos, podemos fazer nossa parte para evitar o entupimento de bueiros e o assoreamento de rios, algumas das causas para as enchentes que têm assolado vários municípios brasileiros, entre os quais, alguns paranaenses.

Mas a chuva é um motivo ainda maior de apreensão para o produtor rural, pois, quando em excesso, pode causar prejuízo em diversas etapas das culturas típicas desta época do ano. Como se não bastasse olhar para o céu e rezar para que as chuvas cessem no momento certo, os moradores das áreas rurais passam por dificuldades diversas resultantes do mau tempo e da falta de infraestrutura básica como pontes em boas condições de uso e estradas rurais trafegáveis.

Certamente as chuvas são um grande fator de risco para a safra de grãos, pois podem aumentar a incidência da ferrugem na soja, por exemplo, além de retardar a colheita e causar prejuízos à produtividade. Com as estradas nas péssimas condições que conhecemos, como por exemplo, nas regiões das cidades de Mato Rico e Campina do Simão, o resultado é o aumento do custo do frete e maiores riscos para o produtor rural.

Há que se lembrar ainda das centenas de crianças que residem nas zonas rurais de nossos municípios, as quais, para frequentar a escola, dependem de um transporte escolar de qualidade e de

 

 

estradas com condições de levá-las em segurança à esperada sala de aula. Com a proximidade do início das aulas, esperamos que o tempo não seja mais um empecilho que impeça nossas crianças de receberem uma educação de qualidade.

Outros transtornos parecem simples, mas que igualmente se transformam em problemas para os moradores, como a simples possibilidade de ir e vir, seja para ir a um médico, ou para o transporte de insumos, mercadorias, etc.

Infelizmente, nossas autoridades só lembram das promessas de melhorias nas estradas rurais, pontes e limpeza dos rios quando dias e dias de chuvas nos levam a constatar que, quando a força da natureza se revela, o homem se torna frágil e dependente.
O mês de janeiro foi um dos mais chuvosos dos últimos 30 anos, o que irá, certamente se refletir em nossa economia, tão dependente do setor de agronegócio. O atraso nas colheitas, o maior tempo de secagem necessário para diminuir a umidade dos grãos e as estradas rurais intrafegáveis são apenas um dos lados da moeda que nos fazem refletir mais e mais o quanto somos impotentes quando a natureza reage após tantas agressões.

No entanto, há diversas atitudes que podem e devem ser tomadas por nossas autoridades, como o estabelecimento de preços mínimos de garantia para o produtor rural; investimento em infraestrutura nas áreas rurais de nossos municípios, como estradas rurais e pontes; conscientização sobre a importância da preservação das matas ciliares; entre outras propostas que juntas podem tornar menos amargos os efeitos da chuva que, quando na medida certa, é o bálsamo que a terra aguarda, mas, quando em excesso, se converte em temor por nosso futuro e por nossas vidas.


Nery José Thomé

Engenheiro Agrônomo
Presidente da Associação dos Jornais Diários do Interior

 

 

 

QUE A TERRA AINDA NOS PERMITA NOS FARTAR DE PÃO

 

Deus prova sua grandiosidade e a perfeição de suas obras quando, vez ou outra, nós, meros mortais, conseguimos fazer algo digno de ser chamado “divino”, ou qualquer que seja o elogio que possamos dirigir ao fruto do talento humano.

A música é uma destas possibilidades e, quando bem feita, eleva nosso espírito e nos faz agradecer os dons que recebemos. Cio da Terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque é uma canção que fala de tantas coisas em sua simplicidade que se aproxima bastante da palavra divina.

Como engenheiro agrônomo, trabalhador pela melhoria de nosso setor rural, prefiro avaliar a canção ao pé da letra.

Debulhar o trigo./Recolher cada bago do trigo./Forjar no trigo o milagre do pão./E se fartar de pão. Assim é nosso desafio diário frente à rotina do trabalho, da família, da vida. Debulhar o que recebemos e o que buscamos com o suor do nosso trabalho, aceitar o que é bom e o que é ruim, fazendo do todo nosso motivo principal de enfrentar cada novo dia.

Decepar a cana./ Recolher a garapa da cana./ Roubar da cana a doçura do mel./ Se lambuzar de mel./  Na vida, nem sempre recebemos apenas o mel que fala a canção, afinal, em tudo sempre há um bonus e seu respectivo onus, mas o que nos faz diferentes e realizados é recolher do todo apenas aquilo que nos faz bem, assim, avaliemos o ano que passou, com seus sustos, perdas e frustrações, sorvendo dele apenas o que pode nos fazer bem.

Afagar a terra./ Conhecer os desejos da terra./Cio da terra, a propícia estação./ E fecundar o pão. Impossível não reconhecer a beleza e a profundidade do que se quiz dizer com este singelo

 

 

trecho, afinal, o homem do campo afaga e cuida, com amor e carinho daquela que lhe dá o pão e só continuará dando se todos nos conscientizarmos para a importância do desenvolvimento sustentável. Quem ama, conhece os desejos a quem dirige seu amor e tal sentimento só será fecundo a partir do momento que respeitarmos nossas fontes de água, luz, alimento e, é claro, vida.

O ano de 2009 termina com dois sentimentos contraditórios. De um lado, a crise que nos aterrorizava parece ter amenizado suas garras, embora haja muito a ser feito. Do outro, a decepção, pois, se havia esperança de mudanças, afinal nunca houve tamanha mobiliziação em torno dos assuntos climáticos voltados para uma só cidade: Copenhague, com tantas campanhas e bandeiras de luta, os resultados foram pífios e inexpressivos. O evento termina com o gosto amargo da derrota e do pessimismo, pois aquele responsável por um país que é um dos maiores emissores de gases poluentes do mundo, de quem se esperava muito mais que palavras vazias, recebemos apenas uma frustrada e desnecessária “quem sabe um dia faremos parte de um acordo geral sobre o clima”.

Voltando à música que hoje me inspira a escrever o primeiro artigo de 2010, é impossível não se perguntar se nossos filhos, netos, bisnetos e todas as gerações futuras poderão ouvir a letra da canção Cio da Terra e ainda desfrutar da riqueza que hoje desperdiçamos.

Meu desejo para 2010 e para outros mais é que a terra ainda possa nos permitir que nos fartemos de pão, nos lambuzemos de mel e fecundemos o chão. 

Nery José Thomé

Engenheiro Agrônomo
Presidente da Associação dos Jornais Diários do Interior